Face ao contemporâneo fortalecimento de lideranças, partidos e movimentos de extrema-direita mundo afora, inúmeros intelectuais têm estabelecido profícuos diálogos com a primeira geração da teoria crítica.Além de análises sobre as experiências históricas do nazifascismo, os frankfurtianos também se notabilizam por diagnosticar elementos de continuidade entre essa aguda crise de recrudescimento autoritário e o período posterior ao pós-guerra – nos termos de Adorno, a sobrevivência do nacional-socialismo na democracia seria mais ameaçadora do que a sobrevivência de tendências fascistas contra a democracia. Se, conforme Enzo Traverso, o conceito de fascismo é tanto indispensável quanto inapropriado para compreender a coetânea ascensão da extrema-direita, convém abordar ensaios e conceitos da teoria crítica a partir deste duplo ponto de vista – perscrutar o que se mantém atual e crítico diante de um fenômeno que se constitui aos nossos olhos e, por outro, quais são limites das categorias dos frankfurtianos para abordar esse momento histórico. Explorar criticamente as rupturas e continuidades entre o chamado círculo externo – a partir de Neumann – e o círculo interno – Horkheimer e Adorno – da primeira geração da teoria crítica me parece um profícuo caminho tanto para compreender os distintos diagnósticos e as nuances entre esses autores como a profusão de temas e conceitos que podem nos auxiliar na interpretação de fenômenos contemporâneos.
Ao longo dos encontros, a discussão dos ensaios os frankfurtianos não se orientará pelo simples registro historiográfico de suas categorias, mas se volta à indagação crítica da atualidade de suas interpretações. Embora não se trate de ignorar especificidades de momentos sociohistóricos distintos, esse minicurso visa promover uma prática de pesquisa sociológica que não enxerga a reflexão teórica como exercício que se esgota com a adequação de conceitos com a empiria. A demorada atividade de discussão crítica sobre conceitos da sociologia é tarefa imprescindível para interpretar elementos de continuidade e de ruptura entre processos e fenômenos que se desdobram em tempos históricos diversos.
